Resumo
Este ensaio propõe um diálogo entre a sociologia de Pierre Bourdieu, a fenomenologia-hermenêutica de Martin Heidegger e a Daseinsanalyse, tomando a dominação masculina como problema histórico-social e interrogando seus efeitos sobre os modos concretos pelos quais possibilidades de existência podem tornar-se inteligíveis, reconhecíveis ou dificilmente pensáveis. A articulação não pressupõe equivalência entre categorias sociológicas e determinações existenciais. Habitus (disposições incorporadas) não corresponde a Verstehen (compreensão), campo não corresponde a mundo, doxa (adesão pré-reflexiva ao que aparece como evidente) não corresponde a das Man (o impessoal), e a história incorporada no habitus não corresponde à Geworfenheit (lançamento). A pergunta que organiza nossa investigação é a seguinte: como um ente cujo modo de ser é poder-ser existe concretamente em um mundo histórico que distribui desigualmente aquilo que pode aparecer como possível? Sustentamos, como hipótese interpretativa, que gênero não é um existencial do Dasein, mas pode participar historicamente da configuração concreta dos modos pelos quais uma existência compreende a si mesma, encontra os outros e se compreende em possibilidades. Nessa direção, propomos compreender a masculinidade como modo historicamente determinado de compreensão das possibilidades de ser, preservando a diferença entre abertura ontológica e disponibilidade histórico-social das possibilidades. Por fim, examinamos as consequências dessa distinção para uma clínica daseinsanalítica que reconheça a força da história sem reduzir a existência singular às estruturas sociais que a atravessam.
Notas iniciais, quando a história aparece como natureza
A dominação masculina, tal como investigada por Pierre Bourdieu, não deve ser tomada como consequência necessária de uma diferença biológica nem como propriedade natural dos homens. O problema sociológico consiste precisamente em compreender como relações historicamente constituídas podem adquirir a aparência da evidência, fazendo com que classificações, divisões e hierarquias produzidas socialmente sejam reconhecidas como se pertencessem à ordem natural das coisas. A força da análise bourdieusiana encontra-se em mostrar que a reprodução da dominação não depende apenas de coerção exterior ou adesão consciente a uma ideologia, porque relações objetivas de poder podem ser incorporadas em disposições, esquemas de percepção, práticas e modos corporais de orientação no mundo social. A história, nessa perspectiva, pode tornar-se prática incorporada, e aquilo que foi produzido em condições determinadas pode ser experimentado como evidente, legítimo ou necessário.
Nosso interesse não consiste em transformar Bourdieu em fenomenólogo nem em fazer de Heidegger um teórico do gênero. A aproximação parte justamente da diferença entre os problemas formulados por cada autor. Bourdieu oferece instrumentos para investigar a constituição histórica e social de disposições, classificações, posições e relações de poder, enquanto Heidegger interroga o modo de ser daquele ente para o qual algo pode aparecer como significativo e possível. A Daseinsanalyse, por sua vez, desloca essa tensão para a situação clínica, na qual nenhuma estrutura social pode substituir a investigação da maneira singular pela qual uma existência concreta encontra a si mesma, os outros e seu mundo.
O diálogo que propomos não pressupõe equivalência entre as categorias sociológicas de Bourdieu e as determinações existenciais da analítica heideggeriana, nem pretende derivar umas das outras. Habitus (disposições incorporadas) não corresponde a Verstehen (compreensão), campo não corresponde a mundo, doxa (adesão pré-reflexiva ao que aparece como evidente) não corresponde a das Man (o impessoal), e a história incorporada no habitus não corresponde à Geworfenheit (lançamento). O que colocamos em relação são problemas distintos que se encontram na existência concreta. Bourdieu permite investigar como determinadas possibilidades concretas de existência adquirem condições historicamente desiguais de inteligibilidade, reconhecimento, legitimação e realização, enquanto a analítica existencial permite interrogar o modo de ser daquele ente para o qual algo pode aparecer como possibilidade. A passagem de um registro ao outro constitui, portanto, uma operação interpretativa deste ensaio, cuja validade não depende da identificação entre os respectivos vocabulários, mas justamente da preservação de sua diferença.
1. A dominação masculina, quando a história se naturaliza
Em A dominação masculina, Bourdieu investiga a eficácia de uma ordem simbólica capaz de reproduzir relações assimétricas sem depender predominantemente da violência física explícita. A dominação alcança particular eficácia quando as classificações produzidas pela própria ordem social participam dos esquemas mediante os quais essa ordem é percebida e avaliada. A relação entre estruturas objetivas e disposições incorporadas ajuda a compreender por que relações historicamente contingentes podem adquirir a força prática da necessidade. Não se trata de afirmar que dominantes e dominados ocupem posições equivalentes ou possuam responsabilidade simétrica pela reprodução da ordem, mas de compreender como uma estrutura social pode encontrar apoio nos próprios modos de percepção e ação historicamente constituídos.
O conceito de habitus é decisivo para esse problema. O habitus não deve ser entendido como regra consciente, representação intelectual ou programação mecânica da conduta, mas como sistema de disposições historicamente constituídas que orienta práticas e percepções sem exigir tematização reflexiva permanente. Podemos descrevê-lo como pré-reflexivo apenas se deixarmos claro que isso não significa pré-social ou pré-histórico. Sua operação pode anteceder a reflexão consciente justamente porque uma história social já foi incorporada. O agente não necessita formular teoricamente a estrutura do campo para orientar-se praticamente nele, e essa capacidade de ajustamento participa da reprodução das relações sociais sem que cada prática precise ser produzida por uma decisão explícita.
A hexis corporal torna particularmente visível essa incorporação. A história social não permanece apenas como representação ou discurso, ela participa da constituição de disposições corporais mediante as quais posições, expectativas e diferenças podem tornar-se praticamente reconhecíveis e reiteráveis. A masculinidade pode, nesse registro, adquirir expressão corporal sem que seja necessário supor uma essência masculina anterior às práticas que historicamente a configuram. Por isso, não tratamos a hexis como equivalente fenomenológico da corporeidade vivida, nem utilizamos exemplos corporais particulares como universais antropológicos. O conceito interessa-nos porque impede que a dominação seja pensada exclusivamente no plano das crenças conscientes.
A doxa aprofunda esse problema ao indicar a adesão prática àquilo que aparece como evidente e permanece, em determinadas condições, aquém da problematização. A violência simbólica torna-se inteligível nesse horizonte porque relações de força podem operar mediante categorias de percepção e reconhecimento que participam da própria ordem que posiciona os agentes desigualmente. Sua eficácia não exige que a dominação seja permanentemente vivida como coerção exterior. Para nossa investigação, a consequência interpretativa é que determinadas limitações histórico-sociais podem ser experimentadas como pertencentes à evidência do mundo, fazendo com que algumas possibilidades concretas apareçam como impróprias, improváveis, vergonhosas ou dificilmente pensáveis. Essa formulação já constitui nossa apropriação fenomenológico-hermenêutica do problema e não uma definição textual de Bourdieu.
Campo, capital, doxa, habitus, hexis e violência simbólica formam uma constelação conceitual que permite compreender a reprodução sem reduzi-la a repetição mecânica. Campos organizam relações de posições e forças, capitais possuem eficácia diferencial conforme as estruturas de reconhecimento em jogo, disposições orientam práticas e a doxa participa daquilo que não necessita ser continuamente justificado. Família, escola, religião, Estado e outras instituições podem participar da reprodução de classificações e hierarquias, mas não precisamos supor uma coordenação central ou um agente único que determine a totalidade da ordem social. O ponto decisivo é a relação entre objetivação histórica e incorporação prática.
2. Do mundo social ao mundo compartilhado, aproximações e limites
A passagem para Heidegger exige mudança de registro. In-der-Welt-sein (ser-no-mundo), Mitsein (ser-com), Befindlichkeit (disposição), Verstehen (compreensão), Entwurf (projeto), Geworfenheit (lançamento) e Sorge (cuidado) não são categorias sociológicas destinadas a explicar a produção histórica da masculinidade. Elas pertencem à analítica existencial do Dasein e interrogam o modo de ser daquele ente que não se apresenta simplesmente como coisa dotada de propriedades fixas, mas existe em abertura de mundo, em coexistência e em possibilidades.
Essa diferença impede que identifiquemos habitus e Verstehen. Em Bourdieu, o habitus permite pensar disposições historicamente constituídas e incorporadas mediante as quais os agentes se orientam praticamente em campos sociais. Em Heidegger, Verstehen (compreensão) não é uma competência cognitiva adquirida pela socialização nem um conjunto de disposições práticas, mas uma determinação existencial da abertura do Dasein e de seu caráter de poder-ser. Podemos, contudo, perguntar como disposições historicamente incorporadas participam da configuração concreta daquilo que, em determinada existência situada, se mostra familiar, esperado, legítimo ou realizável. Essa pergunta é nossa e não transforma uma categoria na outra.
A mesma cautela vale para doxa e das Man (o impessoal). A proximidade fenomenal entre aquilo que não necessita ser tematizado porque aparece como evidente e as interpretações públicas da cotidianidade não autoriza equivalência conceitual. Doxa não é das Man, e das Man não é patriarcado. As interpretações públicas descritas ontologicamente por Heidegger não possuem, por si mesmas, conteúdo masculino, patriarcal ou misógino. Em mundos historicamente configurados por relações de dominação masculina, entretanto, os conteúdos concretos dessas interpretações podem carregar significações de gênero. Não identificamos, portanto, das Man e dominação masculina, perguntamos como significações historicamente produzidas podem adquirir a evidência cotidiana do modo como se deve ser, agir, sentir ou aparecer.
Campo também não corresponde a mundo. O campo bourdieusiano designa uma estrutura relacional historicamente determinada de posições, forças, disputas e capitais, enquanto mundo, na analítica existencial, não é a soma dos espaços sociais nos quais alguém participa. Posição no campo não equivale a ser-no-mundo. A diferença, contudo, permite uma questão produtiva: um Dasein que ontologicamente é ser-no-mundo existe concretamente em configurações histórico-sociais nas quais ocupa posições diferenciadas, encontra distribuições desiguais de recursos e reconhecimento e participa de relações que não instituiu soberanamente.
A historicidade social não produz a abertura ontológica do Dasein, mas participa da configuração concreta dos horizontes históricos nos quais suas possibilidades são compreendidas. Inversamente, a abertura ontológica do Dasein não neutraliza a eficácia das determinações sociais nem assegura que todas as possibilidades de existência sejam igualmente inteligíveis, reconhecíveis ou realizáveis. Entre determinação histórica e abertura ontológica não estabelecemos uma síntese que dissolva suas diferenças, mas uma tensão interpretativa, e é justamente nessa tensão que situamos o problema da masculinidade.
3. Poder-ser em um mundo de possibilidades desigualmente distribuídas
A pergunta que concentra nosso problema pode agora ser formulada com maior precisão: como um ente cujo modo de ser é poder-ser existe concretamente em um mundo histórico que distribui desigualmente aquilo que pode aparecer como possível? A formulação não pertence originalmente a Bourdieu ou Heidegger. Ela constitui o eixo interpretativo deste ensaio. Para respondê-la, precisamos distinguir possibilidade ontológica e possibilidade histórico-social, sem transformar essa distinção em oposição entre liberdade e determinação.
Quando Heidegger caracteriza a compreensão como projetiva, possibilidade não significa catálogo de alternativas disponíveis a um sujeito soberano. O poder-ser pertence ao próprio modo de ser do Dasein. Entwurf (projeto) não significa plano de vida, objetivo consciente ou escolha voluntarista de quem alguém pretende tornar-se. Da mesma forma, Geworfenheit (lançamento) não significa simplesmente ter sido condicionado pela sociedade. O lançamento pertence à estrutura ontológica da facticidade, enquanto classe, gênero, relações familiares, língua, instituições e posições sociais podem compor determinações histórico-concretas da existência factualmente lançada sem constituírem, isoladamente ou em conjunto, a estrutura ontológica do lançamento.
A história incorporada no habitus, portanto, não corresponde à Geworfenheit. Em Bourdieu investigamos a gênese histórico-social de disposições em condições objetivas determinadas. Em Heidegger interrogamos o caráter factual de uma existência que já se encontra entregue a condições que não instituiu originariamente. A aproximação torna-se fecunda apenas quando preservamos essa diferença. Não temos, de um lado, uma determinação social absoluta e, de outro, uma liberdade ontológica capaz de escapar a ela. Temos uma existência que projeta possibilidades sendo já lançada, e uma história social que participa concretamente da maneira pela qual algumas dessas possibilidades podem adquirir maior ou menor inteligibilidade, reconhecimento e condições de realização.
É nesse sentido que sustentamos uma das teses centrais do ensaio: a abertura ontológica do poder-ser não equivale à disponibilidade histórico-social das possibilidades. Isso não significa que a sociedade produza a possibilidade enquanto estrutura ontológica, nem que exista por baixo das determinações históricas um sujeito livre aguardando emancipação. Significa que o fato de o Dasein existir compreendendo-se em possibilidades não implica que todas as possibilidades concretas de existência apareçam com igual legitimidade, reconhecimento, plausibilidade ou realizabilidade em determinada formação histórica.
O efeito de histerese permite acrescentar uma dimensão temporal à análise bourdieusiana. Disposições constituídas sob determinadas condições podem permanecer operantes quando as condições objetivas se modificam, produzindo uma defasagem entre história incorporada e situação presente. Aplicado ao problema deste ensaio, o conceito permite pensar a possibilidade de que mudanças jurídicas, institucionais ou discursivas não impliquem transformação simultânea das disposições mediante as quais determinadas formas de masculinidade continuam sendo praticamente reconhecidas e vividas. Não deduzimos daí consequências psicológicas necessárias, como ansiedade, ressentimento ou violência, porque tais relações exigiriam investigação empírica própria. As consequências subjetivas e clínicas precisam ser compreendidas em cada situação concreta.
Podemos então precisar nossa formulação: gênero não é um existencial do Dasein. Trata-se, em nossa investigação, de uma determinação histórico-social que pode participar da configuração concreta dos modos pelos quais uma existência se compreende, compreende os outros e encontra determinadas possibilidades como inteligíveis, reconhecíveis ou realizáveis. Nessa direção, propomos a masculinidade como modo historicamente determinado de compreensão das possibilidades de ser. A expressão não designa essência, propriedade psicológica, identidade fixa ou estrutura ontológica. Ela nomeia nossa hipótese interpretativa acerca da maneira pela qual significações historicamente constituídas do masculino podem participar da configuração concreta da compreensão de possibilidades.
A mesma delimitação vale para a alteridade. Em mundos historicamente organizados por significações de gênero, o outro já pode aparecer generificado. Essa formulação é nossa hipótese fenomenológico-hermenêutica e não uma tese diretamente atribuída a Bourdieu ou Heidegger. Ela não converte gênero em condição ontológica do aparecer do outro, apenas indica que encontros concretos ocorrem em mundos históricos nos quais classificações de gênero podem participar antecipadamente de sua inteligibilidade. O outro, contudo, pode exceder aquilo que nossas antecipações históricas permitem inicialmente reconhecer nele, e é precisamente nesse excesso que a alteridade pode tornar-se novamente visível.
4. Da dominação incorporada à abertura de possibilidades, implicações para a Daseinsanalyse
A passagem para a clínica exige cautela adicional. Heidegger não formula em Ser e tempo uma técnica psicoterápica, e a distinção das modalidades de Fürsorge (cuidado para com o outro) não deve ser apresentada como protocolo clínico. A utilização dessa distinção para pensar a relação terapêutica constitui nossa apropriação interpretativa. Do mesmo modo, a contribuição de Medard Boss para nosso argumento não consiste em oferecer uma teoria daseinsanalítica do gênero ou da dominação masculina, mas em participar da constituição de uma perspectiva clínica na qual os fenômenos humanos são interrogados a partir dos modos concretos de relação da existência com seu mundo, sem que nossa aplicação dessa perspectiva ao problema de gênero seja atribuída diretamente a Boss.
A interlocução com Bourdieu introduz na investigação clínica uma exigência adicional. Aquilo que aparece singularmente na existência do paciente pode participar de relações históricas de classificação, incorporação e poder cuja gênese ultrapassa sua biografia individual. Reconhecer essa dimensão não significa explicar causalmente o indivíduo pela sociedade, mas impedir que uma formação histórico-social seja inadvertidamente psicologizada. A história não explica antecipadamente a experiência singular, mas a experiência singular não ocorre fora da história. Cabe, portanto, sustentar simultaneamente duas perguntas: como determinada possibilidade aparece para esta pessoa e em que mundo histórico ela pôde adquirir esse sentido? Uma resposta não pode ser deduzida automaticamente da outra.
Uma clínica historicamente situada não é aquela que encontra gênero em todos os fenômenos, mas aquela que permanece capaz de reconhecer sua relevância quando ela efetivamente se mostra. Diante de silêncio, vergonha, contenção afetiva, necessidade de reconhecimento, dificuldade de pedir ajuda ou qualquer outro fenômeno, a existência de modelos culturais de masculinidade pode fornecer contexto e hipótese, mas não autoriza conclusão antecipada sobre o significado singular da experiência. Associação culturalmente plausível não equivale a determinação fenomenologicamente demonstrada. O fenômeno precisa ser investigado na maneira concreta pela qual se mostra, em suas relações, temporalidade, corporeidade, significações e mundo compartilhado.
A apropriação clínica que propomos da Fürsorge torna-se fecunda justamente porque impede que o terapeuta se coloque como aquele que sabe antecipadamente quem o paciente deveria ser. Uma clínica que pretenda libertar alguém de uma norma de gênero impondo-lhe outra concepção normativa de liberdade corre o risco de repetir, no interior da relação terapêutica, a própria estrutura prescritiva que pretendia questionar. Não se trata de dizer ao paciente qual masculinidade seria mais autêntica, saudável ou emancipada, mas de sustentar uma relação na qual aquilo que se apresentava como evidente possa tornar-se interrogável e aquilo que permanecia encoberto possa eventualmente aparecer como possibilidade.
Isso também exige reflexividade por parte do terapeuta. Não existe terapeuta socialmente neutro observando um paciente socialmente condicionado. O terapeuta igualmente existe em um mundo histórico e pode chegar à relação clínica atravessado por classificações, expectativas e antecipações acerca do masculino e do feminino. A escuta precisa, portanto, incluir a possibilidade de que aquilo que reconhecemos imediatamente como evidente no paciente esteja atravessado por nossas próprias antecipações. Essa cautela não equivale à reflexividade sociológica de Bourdieu nem à redução fenomenológica, mas constitui, em nossa articulação, uma exigência metodológica de não preencher o fenômeno com uma teoria previamente disponível.
A transformação clínica, tal como a estamos pensando, não consiste em libertar a existência de sua história, nem em descobrir uma essência individual verdadeira por detrás das determinações históricas. Consiste em sustentar condições para que sentidos anteriormente vividos como evidentes, necessários ou inevitáveis possam tornar-se interrogáveis, permitindo investigar como determinadas possibilidades adquiriram força, enquanto outras permaneceram obscurecidas, interditadas ou dificilmente pensáveis. Não sabemos antecipadamente quais possibilidades deverão ser assumidas. A singularidade clínica não é aquilo que resta depois de retirarmos a história, mas a maneira irrepetível pela qual uma existência concreta se encontra implicada em um mundo histórico compartilhado.
5. Limites e possibilidades do diálogo
A fecundidade do diálogo proposto encontra-se menos nas semelhanças terminológicas entre Bourdieu e Heidegger do que na diferença entre as perguntas que orientam seus respectivos projetos. Não buscamos uma síntese na qual habitus se converta em Verstehen, campo em mundo, doxa em das Man ou história incorporada em Geworfenheit, porque cada uma dessas equivalências eliminaria precisamente aquilo que torna o diálogo teoricamente produtivo. Bourdieu permite investigar como relações historicamente constituídas de poder participam da formação de disposições, classificações, práticas e condições desiguais de reconhecimento e realização de possibilidades concretas, enquanto Heidegger permite interrogar o modo de ser daquele ente para o qual algo pode aparecer como possibilidade. Bourdieu e Heidegger não são complementares em si mesmos, tornam-se interlocutores no interior da pergunta que formulamos.
Não precisamos, para esse propósito, postular uma ontologia bourdieusiana. Suspendemos a questão acerca de uma possível ontologia implícita na sociologia de Bourdieu porque sua demonstração exigiria uma reconstrução específica que ultrapassa o objetivo deste ensaio. Mobilizamos suas categorias no plano em que são teoricamente desenvolvidas para a investigação das relações e práticas sociais e reservamos a Heidegger a explicitação do problema ontológico do modo de ser do Dasein. Essa escolha não significa negar que a obra de Bourdieu possa conter pressupostos ontológicos, apenas significa que não transformaremos essa possibilidade em informação demonstrada sem realizar o trabalho necessário para sustentá-la.
Também não transformamos Heidegger em sociólogo. Ser e tempo não fornece uma teoria das classes sociais, dos campos, do capital simbólico ou da dominação masculina. Mitsein não explica por que determinados grupos possuem mais poder que outros, das Man não explica institucionalmente a reprodução do patriarcado, Geworfenheit não explica a socialização de gênero e Verstehen não explica sociologicamente por que determinadas possibilidades recebem maior reconhecimento do que outras. A ontologia fundamental pode explicitar estruturas mediante as quais uma existência encontra mundo, outros e possibilidades, mas não fornece, por si só, a explicação histórico-social dos conteúdos e relações de poder mediante os quais esse mundo compartilhado se encontra concretamente organizado.
Preservamos, portanto, a diferença entre o registro ontológico da analítica existencial e o registro histórico-social da sociologia bourdieusiana sem converter essa diferença em hierarquia entre os autores. Heidegger não fornece uma sociologia mais fundamental da dominação, assim como Bourdieu não fornece uma ontologia alternativa do Dasein. Do ponto de vista da distinção heideggeriana que orienta nossa leitura, as determinações histórico-sociais investigadas por Bourdieu não devem ser convertidas em determinações existenciais. Isso não diminui sua eficácia concreta nem autoriza uma clínica a tratá-las como elementos secundários diante de uma suposta liberdade ontológica originária.
O diálogo torna-se fecundo justamente porque os autores não dizem a mesma coisa. Bourdieu permite mostrar que aquilo que aparece como natural pode possuir história, Heidegger impede que convertamos essa história em propriedade substancial de um ente simplesmente presente. Bourdieu permite investigar a distribuição desigual das condições concretas de reconhecimento e realização de possibilidades, Heidegger permite distinguir essa distribuição histórico-concreta da estrutura ontológica do poder-ser. Bourdieu impede que a clínica transforme estruturas sociais em problemas exclusivamente individuais, enquanto a Daseinsanalyse impede que a estrutura social substitua a existência singular que efetivamente comparece diante de nós. Essas articulações constituem resultados de nossa leitura e não afirmações de identidade doutrinária entre os autores.
Notas finais, entre determinação histórica e abertura existencial
Ao longo deste ensaio procuramos investigar a dominação masculina sem convertê-la em propriedade natural dos homens, estrutura psicológica universal ou determinação ontológica da existência, preservando simultaneamente a eficácia histórica das relações de poder descritas por Pierre Bourdieu e a diferença de registro introduzida pela analítica existencial de Martin Heidegger. A questão que progressivamente passou a organizar nossa investigação pode ser formulada da seguinte maneira: como um ente cujo modo de ser é poder-ser existe concretamente em um mundo histórico que distribui desigualmente aquilo que pode aparecer como possível? A pergunta não pertence originalmente a nenhum dos dois autores, constitui nossa operação interpretativa e determina o lugar a partir do qual os colocamos em diálogo, sem pressupor equivalência entre seus conceitos e sem converter uma teoria sociológica da dominação em ontologia ou uma ontologia fundamental em teoria sociológica das relações de gênero.
A contribuição de Bourdieu permite-nos compreender como relações historicamente constituídas podem adquirir objetividade nas instituições e simultaneamente incorporar-se em disposições, classificações, práticas e modos corporais de orientação no mundo social, participando da reprodução de uma ordem que pode apresentar como naturais diferenças e hierarquias historicamente produzidas. A força dessa análise para nossa investigação encontra-se precisamente em impedir que as formas concretas pelas quais homens e mulheres compreendem posições, expectativas e possibilidades sejam tratadas como simples manifestações de uma natureza anterior à história. Ao mesmo tempo, tais categorias permanecem categorias de uma investigação histórico-social e não devem ser convertidas em determinações ontológicas do Dasein.
A analítica existencial introduz uma pergunta distinta. Dasein não designa um sujeito isolado ao qual posteriormente seriam acrescentadas relações sociais, ele existe como In-der-Welt-sein (ser-no-mundo), Mitsein (ser-com), facticamente lançado e compreendendo-se a partir de possibilidades. Essa abertura, contudo, não deve ser interpretada como soberania de um sujeito capaz de escolher livremente entre possibilidades previamente disponíveis. Geworfenheit (lançamento) e Entwurf (projeto) não descrevem duas forças opostas, determinação de um lado e liberdade de outro, mas dimensões articuladas de uma existência que se projeta sendo já facticamente situada. É nesse ponto que nossa interlocução com Bourdieu adquire sua maior fecundidade, não porque o habitus corresponda à Geworfenheit ou porque a distribuição social das possibilidades explique o poder-ser, mas porque a abertura ontológica da existência não implica que suas possibilidades concretas encontrem condições histórico-sociais equivalentes de inteligibilidade, reconhecimento, legitimação e realização.
Podemos, assim, precisar a tese que orientou nosso percurso: gênero não é um existencial do Dasein, mas pode participar historicamente da configuração concreta dos modos pelos quais uma existência compreende a si mesma, encontra os outros e se compreende em possibilidades. Nesse sentido delimitado propomos compreender a masculinidade como modo historicamente determinado de compreensão das possibilidades de ser. A formulação não pretende atribuir a Heidegger uma teoria do gênero nem transformar Bourdieu em fenomenólogo, constitui uma hipótese interpretativa mediante a qual perguntamos como significações historicamente constituídas do masculino podem participar daquilo que aparece a uma existência como possível, impossível, legítimo, impróprio, reconhecível ou dificilmente pensável.
Essa distinção torna-se particularmente relevante para a clínica. A interlocução com Bourdieu impede que sofrimentos relacionados a configurações históricas de gênero sejam imediatamente reduzidos a propriedades intrapsíquicas ou biográficas, enquanto a perspectiva daseinsanalítica impede que a existência singular seja dissolvida em uma estrutura sociológica que antecipadamente explique aquilo que ela vive. A história não explica de antemão a experiência singular, mas a experiência singular não ocorre fora da história. Uma clínica historicamente situada não precisa encontrar gênero em todos os fenômenos, precisa permanecer suficientemente aberta para reconhecer sua relevância quando ela efetivamente se mostra.
Retornamos, assim, à pergunta inicial sem pretender encerrá-la. Como um ente cujo modo de ser é poder-ser existe concretamente em um mundo histórico que distribui desigualmente aquilo que pode aparecer como possível? Nossa resposta permanece deliberadamente tensional: ele não existe fora dessa história, mas tampouco deve ser ontologicamente definido pelas determinações histórico-sociais mediante as quais concretamente existe. A abertura ontológica do poder-ser não equivale à disponibilidade histórico-social das possibilidades, assim como reconhecer a historicidade das possibilidades concretas não significa negar a abertura constitutiva da existência. Entre essas duas ordens não buscamos uma síntese capaz de eliminar sua diferença. É precisamente nessa diferença que situamos a contribuição possível de nosso diálogo entre Bourdieu, a fenomenologia-hermenêutica e a Daseinsanalyse, uma investigação da existência concreta capaz de reconhecer a força da história sem naturalizá-la e preservar a abertura do existir sem convertê-la em abstração diante das condições históricas nas quais cada existência efetivamente se encontra.
Referências
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução de Maria Helena Kühner. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
BOURDIEU, Pierre. O senso prático. Tradução de Maria Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2009.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Tradução de Mariza Corrêa. Campinas: Papirus, 1996.
BOURDIEU, Pierre. Meditações pascalianas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
BOURDIEU, Pierre; WACQUANT, Loïc. Respostas: por uma antropologia reflexiva. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução revisada de Márcia Sá Cavalcante Schuback. 10. ed. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2015.
BOSS, Medard. Psychoanalysis and Daseinsanalysis. Translated by Ludwig B. Lefebre. New York: Basic Books, 1963.