Este texto surge a partir do trabalho de conclusão da especialização em Psicologia Fenomenológica-Hermenêutica do Instituto Dasein. Nasce de uma inquietação a respeito da compreensão, da capacidade de compreender e do alcance das compreensões que estruturam nossa relação com as coisas, com os outros e conosco mesmos.
Notas iniciais
Em Ser e tempo, compreensão e disposição constituem modos fundamentais da abertura do Dasein. Não designam faculdades psicológicas, estados mentais ou funções independentes de um sujeito, mas determinações existenciais pelas quais o existente humano já se encontra aberto a si mesmo, aos outros e ao mundo. A disposição revela o caráter lançado e afetivamente situado da existência; a compreensão manifesta o Dasein como poder-ser, isto é, como existência projetada em possibilidades.
O emprego do termo cooriginárias é decisivo: Heidegger não estabelece uma sequência cronológica na qual o Dasein primeiro seria afetado e depois compreenderia aquilo que sente. Toda compreensão já é tonalizada e toda disposição já abre um campo de inteligibilidade e possibilidades. Disposição e compreensão são distinguíveis analiticamente, mas inseparáveis na abertura do ser-no-mundo.
A hipótese central é que disposição e compreensão não devem ser concebidas como mecanismos paralelos da subjetividade. Na clínica, essa compreensão permite investigar não apenas o que o paciente sente ou pensa, mas como seu mundo se mostra, quais possibilidades permanecem acessíveis, quais se encontram restringidas e de que maneira sua história é articulada, interpretada e vivida.
1. Da subjetividade moderna à fenomenologia
A filosofia moderna consolidou, de diferentes maneiras, a compreensão do ser humano como sujeito dotado de interioridade, situado diante de um mundo constituído por objetos exteriores. Conhecer significaria representar mentalmente aquilo que se encontra fora da consciência. Estabelece-se, assim, uma separação entre sujeito e objeto, interioridade e exterioridade, consciência e realidade.
Husserl realiza uma crítica decisiva a esse modelo. Por meio da intencionalidade, a consciência é compreendida como consciência de algo. Perceber, recordar, imaginar, julgar e desejar são modos de relação com aquilo que se manifesta. A fenomenologia investiga a correlação entre modos de consciência e modos de doação dos fenômenos, alcançando, na noção de mundo da vida, o solo pré-científico de toda objetivação.
1.1 Da intencionalidade ao ser-no-mundo
Heidegger radicaliza a fenomenologia ao reconduzir a intencionalidade à estrutura mais originária do ser-no-mundo. O Dasein não é uma consciência que sai de si em direção aos objetos: já se encontra junto aos entes, com os outros e implicado em um mundo significativo. A fenomenologia torna-se hermenêutica do Dasein.
Dasein não é um novo nome para sujeito, consciência ou indivíduo biológico. Designa o ente cujo modo de ser inclui uma compreensão de ser e para o qual seu próprio ser está, a cada vez, em questão. A expressão ser-no-mundo nomeia uma constituição unitária: não existe primeiro um sujeito autônomo e depois uma relação exterior com o mundo.
1.2 Mundo, significância e historicidade
Mundo não significa o planeta, o espaço físico ou a soma de todos os objetos. Designa a totalidade de significações, remissões, práticas e possibilidades na qual os entes podem vir ao encontro. Uma cadeira não aparece inicialmente como corpo material dotado de massa e extensão, mas como algo para sentar, estudar, trabalhar ou receber alguém. Ela pertence a uma totalidade utensiliar.
A significância (Bedeutsamkeit) designa a estrutura remissiva da mundanidade. O significado (Bedeutung) relaciona-se à articulação discursiva dessa inteligibilidade. O sentido (Sinn) é aquilo em que se sustenta a compreensibilidade de algo. Na clínica, afirmar que uma experiência possui sentido não significa que tenha sido conscientemente planejada, mas que se insere em um horizonte histórico, relacional e interpretativo no qual pode tornar-se compreensível.
O Dasein já se encontra lançado em uma língua, uma época, práticas sociais, instituições e interpretações públicas. Historicidade não é mera sucessão cronológica, mas a maneira como o existente vem de um passado que continua operando, projeta-se em possibilidades ainda não realizadas e assume seu presente.
1.3 Existenciais e categorias
Categorias são determinações ontológicas dos entes cujo modo de ser não é o Dasein. Existenciais são determinações constitutivas do ente que existe, compreende ser e se relaciona com seu poder-ser. Ser-no-mundo, disposição, compreensão, discurso, ser-com, lançamento, projeto, cuidado, temporalidade e ser-para-a-morte não são traços de personalidade.
O plano existencial refere-se às estruturas ontológicas constitutivas. O plano existenciário diz respeito às maneiras concretas pelas quais uma existência assume, evita, restringe ou realiza suas possibilidades. A ontologia não substitui a investigação clínica; oferece um horizonte para que experiências, sintomas e condutas não sejam reduzidos a mecanismos internos isolados.
2. Disposição e tonalidade afetiva: Befindlichkeit e Stimmung
Befindlichkeit designa o modo como o Dasein já se encontra. Não se reduz a emoções ou estados psicológicos. O Dasein nunca está afetivamente neutro. Antes de refletir sobre sua situação, já se encontra de algum modo. Stimmung designa a tonalidade afetiva concreta na qual esse encontrar-se se manifesta.
As tonalidades não são conteúdos internos projetados sobre um mundo neutro. Elas participam da maneira como os entes vêm ao encontro. No medo, algo se mostra como ameaçador; no tédio, os entes podem perder seu caráter de apelo; na alegria, determinadas possibilidades ganham proximidade. A disposição revela também o lançamento: o Dasein encontra-se entregue a uma existência que não escolheu integralmente.
2.1 Compreensão: Verstehen e poder-ser
A compreensão não se reduz ao entendimento intelectual. Designa a abertura projetiva pela qual o Dasein existe como poder-ser. Existir significa já compreender-se, ainda que implicitamente, a partir de possibilidades. O projeto não é um plano racional de uma consciência soberana, mas a constituição existencial da compreensão.
Todo projeto é lançado. As possibilidades são abertas desde uma situação histórica, corporal e relacional. Podem ser assumidas, recusadas, obscurecidas, rigidificadas ou sequer reconhecidas. O Dasein pode compreender-se a partir das interpretações públicas do impessoal, repetindo expectativas e papéis sem apropriação singular.
2.2 Interpretação como desenvolvimento da compreensão
A interpretação (Auslegung) desenvolve aquilo que já foi aberto na compreensão. Interpretar uma cadeira como objeto para sentar, uma fala como ofensa ou uma situação como perigosa pressupõe uma compreensão prévia do contexto. Toda interpretação opera a partir de pressupostos.
Na clínica, o terapeuta não escuta a partir de um ponto neutro. Possui formação, história, linguagem, expectativas e tonalidades afetivas. A disciplina fenomenológica não consiste em eliminar totalmente esses pressupostos, mas em torná-los examináveis e impedir que determinem antecipadamente o sentido da experiência do paciente.
2.3 O discurso como articulação da inteligibilidade
O discurso (Rede) é o terceiro momento cooriginário da abertura. Não é sinônimo de fala verbal, mas articulação da inteligibilidade do ser-no-mundo. A linguagem é a exteriorização do discurso; falar, ouvir, calar e compartilhar sentidos são suas possibilidades.
Na clínica, a narrativa não deve ser tratada como simples representação verbal de conteúdos psíquicos internos. Ela articula o ser-no-mundo, a história e as possibilidades do paciente. Escutar implica acompanhar palavras, metáforas, repetições, interrupções, silêncios e aquilo que ainda não encontrou linguagem.
3. Cooriginariedade entre disposição, compreensão e discurso
Nenhum desses modos possui prioridade temporal ou causal absoluta. A disposição abre o mundo tonalmente; a compreensão abre possibilidades; o discurso articula a inteligibilidade. Todo compreender é afetivamente afinado, toda disposição abre um campo de possibilidades e toda articulação discursiva emerge de um mundo compreendido e tonalizado.
3.1 Cuidado como unidade do ser do Dasein
O cuidado (Sorge) é a estrutura ontológica unitária do ser do Dasein: ser-adiante-de-si, já-sendo-em-um-mundo e sendo-junto aos entes. Não significa gentileza, preocupação moral ou técnica de autocuidado. Designa a estrutura pela qual o Dasein já está entregue ao seu ser, projetado em possibilidades e envolvido com o mundo.
Em relação aos outros, a solicitude (Fürsorge) articula-se ao ser-com (Mitsein). Os outros não são acrescentados secundariamente a sujeitos isolados: já pertencem à constituição do mundo. Mesmo a solidão permanece atravessada por linguagem, normas, expectativas e relações.
3.2 Temporalidade e finitude
A unidade do cuidado funda-se na temporalidade. O Dasein não é um ente simplesmente localizado numa sequência de instantes. O futuro é o movimento pelo qual advém a si a partir de suas possibilidades; o passado é o já-ter-sido que continua operando na facticidade; o presente é a presentificação do mundo com o qual se ocupa.
A finitude não é mero dado biológico acrescentado ao final da vida. O ser-para-a-morte revela que as possibilidades são limitadas e que nenhuma existência pode realizar todas elas. A antecipação da finitude pode singularizar a relação com o próprio poder-ser.
4. Da ontologia fundamental à Daseinsanalyse
A passagem da ontologia para a clínica exige cautela. Os existenciais não são categorias diagnósticas e não explicam causalmente um sintoma. A pergunta clínica não é qual existencial o paciente “possui”, mas como as estruturas existenciais se realizam em sua história: como ele se encontra, como o mundo lhe vem ao encontro, quais possibilidades aparecem e como se relaciona com os outros, o corpo, o tempo e a finitude.
4.1 Medard Boss e a restrição da liberdade existencial
Boss critica a concepção do psiquismo como aparelho fechado composto por forças e representações internas. O existente humano é abertura para aquilo que encontra. O sofrimento pode manifestar-se como limitação, rigidez ou estreitamento das possibilidades de existir. Na fobia, regiões do mundo tornam-se inacessíveis; na compulsão, o campo de possibilidades organiza-se sob exigências rígidas; na depressão, relações e projetos podem perder seu caráter de apelo.
A terapia não visa adaptar o indivíduo a uma norma exterior, mas favorecer maior liberdade e amplitude na relação com aquilo que vem ao encontro.
4.2 Alice Holzhey-Kunz e o sofrimento pelo próprio ser
Holzhey-Kunz acrescenta uma inflexão hermenêutica decisiva. O sofrimento não deve ser compreendido apenas como deficiência ou restrição de abertura. A pessoa pode apresentar sensibilidade intensa às condições fundamentais da existência: finitude, contingência, culpa, dependência, falta de fundamento e impossibilidade de controle absoluto.
O paciente pode tornar-se, em sua conhecida formulação, um “filósofo contra a vontade”: não porque produza teorias, mas porque é involuntariamente confrontado com verdades ontológicas que a vida cotidiana tende a encobrir.
4.3 A tradição brasileira e a clínica do sentido
Na tradição fenomenológico-hermenêutica brasileira, a clínica é frequentemente compreendida como espaço de explicitação dos sentidos que organizam a experiência. O sentido não é inventado pelo terapeuta nem localizado como conteúdo oculto. Ele se mostra na maneira como a pessoa habita o mundo, articula sua história e se relaciona com suas possibilidades.
5. Disposição e compreensão na clínica
Escutar a disposição significa acompanhar como o mundo se mostra: ameaçador, indiferente, pesado, acelerado, vazio ou acolhedor. Escutar a compreensão significa investigar o campo do poder-ser: quais possibilidades permanecem acessíveis, quais parecem impossíveis, quais são evitadas e que futuro se anuncia. Escutar o discurso significa acompanhar a articulação dessa experiência nas palavras, metáforas, repetições e silêncios.
5.1 Experiência depressiva
Na experiência depressiva, o mundo pode perder seu caráter de apelo. Atividades antes relevantes deixam de convocar, o futuro aparece fechado e o corpo pesa. Não se trata apenas de um conteúdo mental negativo, mas de uma transformação global do modo de ser-no-mundo. A clínica pergunta como possibilidades foram se tornando inacessíveis e como o tempo, o corpo e os vínculos passaram a ser vividos.
5.2 Ansiedade
Na ansiedade, o mundo pode aparecer sob o modo de ameaça iminente e indeterminada. O futuro se antecipa como perigo, o corpo torna-se vigilante e o campo de possibilidades pode ser reduzido à prevenção do pior. A escuta procura compreender de que modo a necessidade de controle, a contingência e a exposição ao possível se articulam na história singular.
5.3 Luto
O luto transforma o mundo compartilhado. Lugares, objetos e rotinas continuam presentes, mas perdem ou alteram seu sentido porque a pessoa ausente participava da rede de significações. A clínica não busca normalizar um prazo abstrato, mas acompanhar a reorganização temporal, relacional e identitária produzida pela perda.
Notas finais: implicações para a escuta clínica
A relação terapêutica não deve prescrever novos sentidos. O terapeuta não ocupa a posição de quem conhece antecipadamente a verdade da experiência. Sua tarefa é acompanhar a explicitação da maneira como a pessoa já compreende sua vida. Isso não implica passividade: a clínica pode interrogar contradições, destacar repetições, colocar interpretações em questão e abrir espaço para modos diferentes de articulação.
O sofrimento pode envolver restrição da mobilidade existenciária, mas também constituir resposta às condições da própria existência. Boss enfatiza a restrição das possibilidades; Holzhey-Kunz, o sofrimento pelo próprio ser. Uma existência pode estar simultaneamente restringida e dolorosamente aberta a determinadas verdades.
A clínica fenomenológico-hermenêutica não concebe o terapeuta como observador externo. Ele participa da situação e é afetado pelo encontro. A formação clínica exige cuidado com os próprios modos de interpretar, supervisão, estudo, análise da situação hermenêutica e disposição para que o fenômeno corrija as antecipações teóricas.
Referências essenciais
- BOSS, Medard. Existential Foundations of Medicine and Psychology. New York: Jason Aronson, 1979.
- HEIDEGGER, Martin. Ser e tempo. Tradução de Fausto Castilho. Campinas: Editora da Unicamp; Petrópolis: Vozes, 2012.
- HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon. Tradução de Gabriella Arnhold e Maria de Fátima de Almeida Prado. Petrópolis: Vozes; São Paulo: EDUC, 2001.
- HOLZHEY-KUNZ, Alice. Daseinsanálise: o olhar filosófico-existencial sobre o sofrimento psíquico e sua terapia. Rio de Janeiro: Via Verita, 2018.
- HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica. Aparecida: Ideias & Letras, 2006.
- HUSSERL, Edmund. Investigações lógicas. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.